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quarta-feira, junho 28, 2006

Internet, I love you !



imagem daqui


A Avenida dos Aliados perdeu os canteiros. Gomos e gomos de granito cinzento descaem até à Praça da Liberdade com a assinatura de mestres intocáveis e, se calhar, desconhecidos dos muitos que escolhem aquele espaço para festejar seja o que for que dê para festejar. As estátuas que pontificavam nos canteiros permaneceram, agora mais nuas ainda. Um espelho de água no topo da avenida ameniza a aridez da pedra. Parecem esquecidas por ali umas frágeis cadeiras de ripas, dispostas casualmente, presas ao chão por umas correntes ao jeito do que se faz com as bicicletas nos estacionamentos. É a modernidade a varrer a avenida também, pensei. E ficaria assim mesmo, ouvindo a conversa de três velhos sobre a prenda que acabaram de receber do governo, um tal correio electrónico, enquanto observava na tarde esmaecida a amplidão do lugar. Descobri então que lá em cima, rodeando a estátua de Garrett, muitas e muitas flores coloriam a Praça Humberto Delgado. Verifiquei que aquilo não passava de uma espécie de estufa a céu aberto, se é que me faço entender. Muitos vasos, vasos e mais vasos mal disfarçados por cascas de pinheiros, numa imitação grosseira de qualquer jardim onde as plantas pudessem criar raízes. Claro que tal se deve às comemorações dos santos populares, mas um pouco mais de cuidado não fazia mal a ninguém. De nada adianta a pose arcádica de Garrett, estou em crer que haverá sempre alguém que lhe perguntará o preço de um qualquer vaso de que tenha gostado mais.
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sábado, novembro 12, 2005

crime e castigo
A voz soava abafada sobre as prateleiras de livros solicitando a presença do proprietário do veículo, cuja matrícula era recitada pausadamente, junto do mesmo. Envolvidos pelas leituras de ocasião, os frequentadores da livraria permaneceram indiferentes ao apelo, o que dava para deduzir que a chave para aquela combinação de letras e números não se encontrava naquele recinto localizado na cave do antigo edifício Palladium, ali, no cruzamento das ruas Santa Catarina e Passos Manuel. Só quando as escadas rolantes me elevaram à altura das portas envidraçadas do rés-do-chão pude ver a confusão estabelecida no exterior. Um Mercedes cinza metalizado estava estacionado no lado esquerdo impedindo que o autocarro que desce Santa Catarina vindo da Batalha concluísse a apertada manobra de virar à esquerda e entrar na Passos Manuel. Uma pequena multidão ignorava a alternância de cores no semáforo e permanecia quieta ao longo dos passeios enquanto o motorista do autocarro, numa manobra bem calculada, deslocava o veículo para trás permitindo a chegada do rebocador da polícia ansiosamente aguardado. Havia semanas que o colorido das roupas leves desaparecera das ruas dando lugar às cores escuras dos casacos de Inverno que , juntamente com a luz embaciada da manhã , realçava a palidez dos rostos citadinos em deambulação pelas montras de muitos saldos e pouco saldo. Expressões soltas e sussurradas iam circulando pelo ar sem emissário definido enquanto os agentes da autoridade, num trabalho paciente e decidido, grampeavam as rodas e içavam a traseira do carro à altura do reboque: que lata! é preciso ter lata! nem viu a faixa amarela... não sabe que é proibido! é assim mesmo! que lata! é preciso muita lata!
Do outro lado, frente ao Majestic, decorria uma tomada de cenas para um filme publicitário com o aparato técnico que prendia momentaneamente os transeuntes, mas a personagem principal era mesmo o Mercedes que lá ia rua abaixo puxado pelos cabelos rumo ao depósito seguido à distância pelo estafado autocarro laranja que fazia chiar os travões pelos paralelos escorregadios.
Naquele cruzamento, onde o cheiro a castanhas assadas reconfortava e acolhia, o semáforo recuperava a sua autoridade e ninguém diria que ali se vivera, momentos antes, um julgamento de um crime e a execução de uma pena diante de olhos ocasionais de um fim de manhã na cidade cinzenta e granítica do norte.
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