domingo, janeiro 30, 2005

visita de estudo (conclusão)


Oscar Gustav Rejlander


Por razões que não compreendi voltámos mais cedo que o horário normal do fim das aulas. A camioneta lá nos vomitou no largo. A indicação era rumar a casa. As minhas companheiras já iam lá longe, a iniciar a subida da rua que dava para a minha casa, mas estava ainda sol, o verde do Monte Crasto encostava na escola e chamava pelos que ainda se ficaram distraidamente após a partida da camioneta e da saída da professora. Fomos para o Monte Crasto, um magote. Aí, demos largas à nossa liberdade, escondinhas, caçadinhas, corridinhas, risos, chuis, gargalhadas o sol a pôr-se lá para o mar.
Quando iniciei a subida da minha rua ia consciente de ter cometido um excesso. Afagava a sacola sentindo o pacote de bolachas. Sabia que tinha transgredido, preparei-me para tudo, podia ser que a minha mãe não tivesse visto as minhas colegas a passar, sempre poderia dizer que tinha acabado de chegar à escola, era um passeio, houve um atraso. Sim, só agora chegamos.
Na curva que antecedia a minha casa vi a minha mãe no quintal a apanhar roupa. Não, não direi nada, cheguei agora, pronto, não vou chorar. Subi as escadas, a porta estava aberta, a minha mãe continuava a apanhar roupa. Não deu conta de eu entrar.
Mal tive tempo de me virar e já ela tinha fechado a porta, olhando-me lá de cima. Percebi tudo, não choro, agarrei-me à sacola. A minha mãe tirou-ma furiosa e zás-trás, uma, duas, três, muitas vezes. No fim, fiquei encostada à parede com as pernas encolhidas, estiquei-me para apanhar a sacola caída no chão. Abri-a, as bolachas estavam todas esfareladas mas não chorei.
Não, não lhe disse que lhe comprei uma recordação e que me tinha lembrado dela.

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